No aniversário de Luiz Inácio Lula da Silva, uma retrospectiva de sua vida revela a história de um menino pernambucano que conheceu a pobreza, tornou-se líder sindical, fundou o PT e chegou à Presidência da República em três momentos distintos, atravessando conquistas sociais, crises políticas e disputas que continuam presentes no Brasil de 2026.
A história de Luiz Inácio Lula da Silva se confunde com parte importante da história política e social do Brasil nas últimas décadas. Nascido em uma família pobre do interior de Pernambuco, Lula percorreu um caminho que o levou do trabalho ainda na infância ao movimento sindical, da fundação de um partido político à Presidência da República.
Neste 27 de outubro de 2026, Lula completa 81 anos. Mais do que uma data comemorativa, o aniversário oferece uma oportunidade de revisitar uma trajetória marcada por mudanças profundas, momentos de popularidade, enfrentamentos políticos e controvérsias que ajudaram a moldar o debate público nacional.
Luiz Inácio Lula da Silva nasceu em 27 de outubro de 1945, em Caetés, então distrito do município de Garanhuns, no Agreste de Pernambuco. Foi um dos filhos de Aristides Inácio da Silva e Eurídice Ferreira de Melo, conhecida como dona Lindu.
Sua infância foi marcada por dificuldades financeiras. Em 1952, sua mãe deixou o Nordeste com os filhos em busca de melhores condições de vida em São Paulo, onde a família chegou depois de uma longa viagem.
A experiência da migração, do trabalho precoce e das dificuldades enfrentadas pelas famílias trabalhadoras tornou-se parte central da narrativa pública de Lula. Ainda jovem, ele trabalhou como engraxate, ajudante e operário. Mais tarde, formou-se torneiro mecânico pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai).
Em 1964, sofreu um acidente de trabalho que resultou na perda de parte do dedo mínimo da mão esquerda. O episódio seria lembrado muitas vezes ao longo de sua carreira política.
A entrada de Lula na vida sindical ocorreu durante sua trajetória como trabalhador metalúrgico no ABC paulista, região que concentrava importantes indústrias automobilísticas.
Em 1975, tornou-se presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema. Sob sua liderança, o movimento operário ganhou projeção nacional, especialmente durante as grandes greves de 1978, 1979 e 1980, em plena ditadura militar.
As mobilizações reivindicavam melhores salários, condições de trabalho e maior liberdade sindical. Também contribuíram para ampliar o espaço de participação política dos trabalhadores em um período de restrições democráticas.
Em 1980, Lula foi preso durante a repressão a uma greve, com base na legislação de segurança nacional então vigente. Sua atuação sindical o transformou em uma das figuras mais conhecidas do novo movimento trabalhista brasileiro.
Em fevereiro de 1980, Lula participou da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT), ao lado de sindicalistas, intelectuais, militantes de movimentos sociais e representantes de outros setores da sociedade.
O partido nasceu defendendo a participação popular, os direitos dos trabalhadores e a ampliação da democracia. Sua criação ajudou a reorganizar a esquerda brasileira no processo de abertura política.
Em 1982, Lula disputou o governo de São Paulo, mas não venceu. Em 1986, foi eleito deputado federal constituinte, participando do processo político que culminou na Constituição de 1988.
A experiência parlamentar fortaleceu sua presença nacional e preparou o terreno para uma sequência de candidaturas presidenciais.
Lula disputou a Presidência da República em 1989, 1994 e 1998, sendo derrotado nas três ocasiões.
A eleição de 1989, a primeira eleição presidencial direta após a ditadura militar, tornou-se um marco de sua trajetória. Lula chegou ao segundo turno, mas perdeu para Fernando Collor de Mello.
Nas disputas seguintes, enfrentou Fernando Henrique Cardoso, que venceu em 1994 e 1998.
As derrotas levaram o PT a rever estratégias, ampliar alianças e adaptar seu discurso para alcançar parcelas maiores do eleitorado. Em 2002, Lula apresentou uma imagem mais conciliadora, simbolizada pela chamada Carta ao Povo Brasileiro, documento que sinalizava compromissos com a estabilidade econômica e o respeito aos contratos.
Naquele ano, venceu a eleição presidencial contra José Serra e chegou ao poder após duas décadas de construção política.
Lula governou o Brasil de 2003 a 2010. Seus dois primeiros mandatos foram marcados pela expansão de políticas sociais, pelo aumento real do salário mínimo em diferentes períodos e pela ampliação do acesso ao ensino superior.
O Bolsa Família tornou-se uma das principais marcas de seu governo, reunindo programas de transferência de renda e ampliando o alcance da assistência às famílias de baixa renda.
Também ganharam destaque a expansão das universidades federais, a criação e ampliação de institutos federais, o ProUni, o Fies e iniciativas habitacionais que posteriormente incluíram o Minha Casa, Minha Vida.
Durante parte desse período, o Brasil registrou crescimento econômico, ampliação do emprego formal e redução da pobreza. A conjuntura internacional favorável às exportações brasileiras, especialmente de commodities, também contribuiu para os resultados econômicos.
A trajetória, porém, não foi livre de problemas. O escândalo do mensalão, revelado em 2005, provocou uma das maiores crises políticas de seu governo. O caso envolveu denúncias de pagamentos a parlamentares para apoiar votações no Congresso e resultou em processos e condenações de dirigentes políticos.
Mesmo diante da crise, Lula terminou seu segundo mandato com elevada aprovação popular e elegeu sua sucessora, Dilma Rousseff, em 2010.
A partir de 2014, a Operação Lava Jato passou a investigar um amplo esquema de corrupção relacionado a contratos públicos, especialmente na Petrobras. Lula tornou-se um dos principais personagens políticos desse período.
Em 2017, foi condenado em um processo envolvendo um apartamento no Guarujá. Em 2018, após a confirmação da condenação em segunda instância, foi preso e ficou impedido de disputar a eleição presidencial daquele ano, vencida por Jair Bolsonaro.
A situação jurídica mudou em 2021, quando o Supremo Tribunal Federal anulou as condenações de Lula nos processos relacionados ao tríplex e ao sítio de Atibaia, em razão de questões de competência da Justiça Federal de Curitiba. O STF também confirmou a parcialidade do então juiz Sergio Moro no caso do tríplex.
É importante distinguir a anulação das condenações de uma declaração de inocência após julgamento de mérito: a decisão que anulou os processos não equivaleu a um julgamento definitivo de mérito sobre todas as acusações.
A recuperação dos direitos políticos permitiu que Lula voltasse à disputa presidencial em 2022.
Na eleição de 2022, Lula venceu Jair Bolsonaro no segundo turno por uma margem estreita, com 50,90% dos votos válidos contra 49,10%, segundo os resultados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral.
Em 1º de janeiro de 2023, tomou posse para seu terceiro mandato presidencial, tornando-se o primeiro presidente brasileiro a governar o país em três mandatos não consecutivos.
O novo governo retomou e reformulou políticas sociais, relançou o Bolsa Família, ampliou iniciativas habitacionais e colocou a redução da fome e da pobreza entre suas prioridades. Também buscou reposicionar o Brasil nas discussões internacionais sobre clima, comércio e relações diplomáticas.
Entre as medidas e temas centrais do período estão a reforma tributária sobre o consumo, aprovada pelo Congresso em 2023, a retomada de investimentos públicos e o debate sobre a política fiscal, a inflação, os juros e o equilíbrio das contas públicas.
O terceiro mandato também foi marcado por dificuldades. O governo enfrentou disputas com o Congresso, críticas sobre gastos públicos, pressões econômicas e divergências sobre a condução de políticas ambientais e de segurança. A avaliação de seus resultados depende dos indicadores analisados, do período considerado e das prioridades de cada grupo social.
Ao completar 81 anos, Lula carrega uma trajetória que atravessa diferentes fases da democracia brasileira: a mobilização sindical durante a ditadura, a redemocratização, a consolidação do PT, os governos de coalizão, as crises de corrupção, a polarização política e o retorno ao poder.
Para seus apoiadores, sua história representa a possibilidade de ascensão social e a ampliação de políticas públicas voltadas à população de baixa renda. Para seus críticos, os escândalos de corrupção associados a integrantes de seus governos, as escolhas econômicas e as alianças políticas levantam questionamentos sobre os limites e os custos de seu projeto de poder.
As duas perspectivas fazem parte do debate público, mas não substituem a análise dos fatos, dos indicadores e das decisões tomadas ao longo dos anos.
Em 2026, a avaliação de seu legado passa pela capacidade de transformar programas sociais em oportunidades duradouras, melhorar os serviços públicos, ampliar a produtividade, preservar a estabilidade econômica e responder às demandas de uma sociedade profundamente dividida.
A história de Lula não se resume à ascensão de um homem pobre à Presidência. Ela também ajuda a compreender as transformações do sindicalismo, a reorganização da esquerda, a expansão das políticas de transferência de renda e a crescente polarização da política brasileira.
Sua trajetória contém conquistas reconhecidas por diferentes setores, controvérsias documentadas e decisões que continuam sendo debatidas. Por isso, revisitar sua vida no aniversário é também refletir sobre o país que existia quando ele começou a trabalhar, o Brasil que governou e aquele que enfrenta os desafios de 2026.
Aos 81 anos, Lula permanece como uma das figuras centrais da política nacional. Seu percurso, das dificuldades da infância ao Palácio do Planalto, continua despertando identificação, críticas e discussões sobre democracia, desigualdade, poder e o futuro do Brasil.