
Intervenção no banco digital provocou apreensão entre correntistas, afetou trabalhadores e comerciantes na região de fronteira e ampliou a pressão sobre o governo paraguaio.
A crise financeira envolvendo o Ueno Bank, uma das principais instituições financeiras do Paraguai, está causando preocupação entre milhares de clientes, incluindo brasileiros que vivem no país. A intervenção do Banco Central paraguaio deixou milhões de correntistas temporariamente sem acesso às próprias contas e provocou uma onda de incertezas sobre a recuperação dos valores depositados.
O caso ganhou proporções ainda maiores após relatos de clientes que perderam o acesso às economias utilizadas para pagar despesas básicas, manter negócios e sustentar suas famílias.
Um dos casos relatados é o da brasileira Renata de Brito, de 44 anos, que mantém uma lanchonete na cidade de Hernandarias, próxima à fronteira com o Brasil.
Ela utilizava o Ueno Bank para guardar suas economias e receber os pagamentos dos clientes. Com o bloqueio dos serviços, ficou sem acesso aos recursos que movimentavam seu negócio.
A preocupação também envolve despesas pessoais, compromissos financeiros e a continuidade das atividades comerciais.
Segundo o economista Alexandre Barros da Costa, pesquisador da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila) e da Universidade Federal do Paraná (UFPR), a crise pode atingir dezenas de milhares de brasileiros residentes no Paraguai.
Entre eles estão estudantes de medicina, pequenos comerciantes, produtores rurais e investidores que escolheram a instituição pela facilidade na abertura de contas.
Na cidade de Pedro Juan Caballero, na fronteira com o Brasil, paraguaios também relataram prejuízos e dificuldades para recuperar o dinheiro depositado.
A estudante universitária Yeniffer Mendoza contou ao G1 que tinha 1 milhão de guaranis investidos na instituição, aproximadamente R$ 900. Ao tentar consultar sua conta, percebeu que o aplicativo não funcionava e que o saldo havia desaparecido.
Sua mãe também mantinha dinheiro no banco e foi afetada pela paralisação.
Outro cliente ouvido pela reportagem, o auxiliar administrativo Elias Ruiz, afirmou que mantinha investimentos na instituição havia dois anos. Ele acompanhou a movimentação nas agências antes do fechamento e relatou prejuízos e falta de orientações sobre como proceder.
Os relatos mostram que a crise não atingiu apenas grandes investidores, mas também pessoas que utilizavam o banco para guardar pequenas economias.
O Banco Central do Paraguai determinou a intervenção na instituição após identificar graves problemas financeiros.
O índice de solvência, indicador que mede a capacidade de um banco de absorver perdas e cumprir suas obrigações, caiu para menos da metade do mínimo exigido pelas autoridades.
As investigações também levantaram suspeitas sobre empréstimos concedidos a empresas relacionadas ao grupo controlador do banco, o Grupo Vázquez.
A instituição, criada em 2021, cresceu rapidamente e chegou a aproximadamente 3 milhões de clientes. Também administrava cerca de US$ 850 milhões em recursos públicos.
O Ministério Público abriu investigações e foram expedidos mandados de prisão contra oito executivos ligados à instituição.
O episódio também provocou uma forte crise política no Paraguai.
O presidente Santiago Peña tinha ligações empresariais anteriores com o grupo controlador do Ueno Bank e declarou ter vendido sua participação em março de 2025.
A relação passou a ser questionada pela oposição, que levantou suspeitas de conflito de interesses e possíveis falhas na fiscalização da instituição.
Nesta quinta-feira (5), Peña pediu renúncia ao cargo em meio à pressão política. A sessão do Congresso que discutiria o pedido foi suspensa após parlamentares do Partido Colorado deixarem o plenário, impedindo a continuidade dos trabalhos.
O caso também provocou questionamentos sobre a atuação do Banco Central, especialmente porque seu então presidente, Carlos Carvallo, havia comandado anteriormente o próprio Ueno Bank.
A Reuters também informou que Peña passou a ser investigado pelas autoridades no contexto do colapso financeiro.
O Fundo de Garantia de Depósitos do Paraguai prevê cobertura de até 228,3 milhões de guaranis por pessoa, aproximadamente R$ 211 mil, conforme os limites estabelecidos pela legislação.
O Banco Central trabalha na transferência das contas dos clientes para outras instituições financeiras e na organização dos pagamentos garantidos.
Entretanto, a situação de quem possui valores acima do limite de cobertura ainda gera preocupação.
As autoridades afirmam que a crise está concentrada no Ueno Bank e não representa necessariamente um problema generalizado no sistema financeiro paraguaio.
O caso do Ueno Bank mostra como a quebra de confiança em uma instituição financeira pode ultrapassar os limites do setor bancário e atingir diretamente a vida de milhares de famílias.
No Paraguai, estudantes, aposentados, trabalhadores e comerciantes agora enfrentam incertezas sobre suas economias e compromissos financeiros.
Para os brasileiros que escolheram o país para estudar, trabalhar ou empreender, a crise também representa um alerta sobre a importância de avaliar os riscos antes de concentrar todos os recursos em uma única instituição financeira.
O desfecho do caso deverá influenciar não apenas a recuperação dos depósitos, mas também a confiança dos investidores e a imagem do Paraguai como destino de negócios na América do Sul.