Colapso do Ueno Bank deixou milhões de clientes sem acesso ao dinheiro, expôs suspeitas envolvendo recursos públicos e provocou a queda do presidente Santiago Peña, frequentemente citado como referência por políticos da direita brasileira.
O Paraguai, apresentado nos últimos anos por setores da direita brasileira como exemplo de desenvolvimento econômico baseado em impostos baixos e menor intervenção estatal, enfrenta uma das maiores crises financeiras e políticas de sua história recente.
O centro da turbulência é o Ueno Bank, instituição financeira digital que teve suas operações interrompidas após autoridades identificarem problemas graves de solvência e suspeitas de irregularidades. A crise atingiu milhões de clientes, comprometeu recursos públicos e colocou em xeque a fiscalização do sistema financeiro paraguaio.
O episódio também provocou consequências políticas de grandes proporções. Santiago Peña, presidente que mantinha vínculos empresariais anteriores com o grupo controlador do banco, deixou o cargo em meio às investigações. Em 6 de novembro, o Senado aprovou seu impeachment, e o vice-presidente Pedro Alliana assumiu a Presidência.
Desde a chegada de Santiago Peña ao poder, em 2023, o Paraguai passou a receber atenção de empresários, influenciadores e políticos brasileiros interessados em seu modelo econômico.
A combinação de impostos relativamente baixos, incentivos à atividade empresarial, energia elétrica competitiva e regras específicas para investimentos industriais tornou o país uma alternativa considerada por empresas brasileiras.
A produtora Brasil Paralelo também abordou o tema no documentário Paraguai: O Destino Inesperado, lançado em outubro de 2026. A produção apresenta experiências de brasileiros que transferiram negócios e famílias para o país vizinho e discute fatores que contribuíram para atrair investimentos.
O documentário faz parte de um debate mais amplo sobre o modelo econômico paraguaio. Entretanto, a crise do Ueno Bank trouxe à discussão questões que vão além da carga tributária e dos incentivos empresariais: fiscalização, transparência, controle de recursos públicos e responsabilidade das autoridades.
A dimensão do problema ficou evidente quando clientes começaram a enfrentar dificuldades para acessar suas contas.
O Ueno Bank atendia aproximadamente 2,9 milhões de pessoas, número equivalente a cerca de 60% da população adulta paraguaia. A instituição também administrava centenas de milhões de dólares em recursos públicos, incluindo valores relacionados à Previdência e a outros órgãos estatais.
Segundo informações divulgadas pela imprensa internacional, o Banco Central identificou problemas nos indicadores de solvência da instituição e determinou medidas para controlar sua situação financeira.
As investigações passaram a examinar suspeitas de concessão irregular de empréstimos a empresas relacionadas ao grupo controlador, falhas na documentação de operações e possíveis problemas na fiscalização.
O caso provocou protestos de clientes e preocupação entre aposentados, trabalhadores e pessoas que dependiam dos serviços bancários para receber pagamentos.
Segundo informações divulgadas pelo Banco Central paraguaio em 7 de novembro, aproximadamente 1,2 milhão de clientes já haviam recebido restituições parciais de seus recursos por meio do mecanismo de garantia de depósitos.
Outro aspecto que ampliou a repercussão do escândalo foram os vínculos anteriores entre Santiago Peña e o Grupo Vázquez, controlador do Ueno Bank.
O presidente manteve participação empresarial ligada ao grupo até março de 2025, conforme informações publicadas pela imprensa internacional.
Também passou a ser questionada a trajetória de Carlos Carvallo, que presidiu o Banco Central paraguaio e havia ocupado anteriormente uma posição de liderança na estrutura empresarial que deu origem ao Ueno.
A proximidade entre antigos vínculos empresariais e posições de responsabilidade pública levantou questionamentos sobre possíveis conflitos de interesse e a atuação dos órgãos de fiscalização.
Carvallo deixou a presidência do Banco Central durante a crise. Posteriormente, o Ministério Público paraguaio determinou sua detenção no âmbito das investigações.
Peña nega ter cometido irregularidades. As suspeitas e acusações estão sob investigação e precisam ser analisadas pelas autoridades competentes.
A pressão política aumentou à medida que as consequências financeiras do caso se tornaram mais evidentes.
Em 5 de novembro, Peña apresentou sua renúncia, alegando preocupação com a estabilidade institucional do país. Entretanto, a situação avançou para um processo de impeachment.
No dia seguinte, 6 de novembro, o Senado aprovou sua destituição. O vice-presidente Pedro Alliana assumiu a Presidência do Paraguai.
A crise também alcançou integrantes da estrutura do banco. Executivos foram detidos e passaram a responder a investigações relacionadas às suspeitas de irregularidades financeiras.
O episódio abriu uma discussão nacional sobre a concentração de recursos públicos em instituições financeiras privadas e os mecanismos utilizados para fiscalizar operações bancárias.
O caso paraguaio reacende uma discussão presente em diferentes países da América Latina: até que ponto a redução de impostos e a flexibilização das regras econômicas podem estimular investimentos sem comprometer a fiscalização e a proteção da sociedade?
O Paraguai construiu mecanismos para atrair empresas estrangeiras, incluindo incentivos fiscais e regimes especiais de produção industrial. Essas medidas ajudaram a fortalecer determinados setores econômicos e atraíram empresários brasileiros.
Entretanto, a crise do Ueno Bank demonstra que condições favoráveis aos negócios não eliminam a necessidade de instituições de controle eficientes, transparência e regras capazes de proteger os depositantes.
Baixa tributação, liberdade econômica e estabilidade financeira são conceitos diferentes. Um país pode oferecer vantagens tributárias e, ao mesmo tempo, enfrentar problemas graves de supervisão bancária.
Apesar da crise, o Paraguai não deixa automaticamente de ser um destino de investimentos. O país possui vantagens competitivas, como custos de produção, energia e incentivos para determinadas atividades industriais.
O desafio agora será recuperar a confiança de investidores, consumidores e instituições financeiras.
A investigação sobre o Ueno Bank também deverá esclarecer responsabilidades, identificar eventuais irregularidades e determinar como os recursos públicos foram administrados.
O episódio deixa uma questão importante para o debate brasileiro: modelos econômicos não devem ser avaliados apenas pelas promessas de crescimento, redução de impostos ou facilidades para empresários. A qualidade das instituições, a fiscalização e a proteção dos cidadãos também precisam fazer parte dessa análise.