Internacional CRISE NO PARAGUAI
Crise bancária no Paraguai abala discurso do “paraíso liberal” defendido por setores do bolsonarismo
Colapso do Ueno Bank deixou milhões de clientes sem acesso ao dinheiro
07/11/2026 10h08
Por: Maranhão Noticias
Membros da Polícia Nacional do Paraguai guardam a entrada de uma das agências do Banco Ueno em Assunção, Paraguai. O Banco Central do Paraguai (BCP) anunciou que iniciou um procedimento de resolução, aplicado em casos de insolvência, contra o Banco Ueno,

Colapso do Ueno Bank deixou milhões de clientes sem acesso ao dinheiro, expôs suspeitas envolvendo recursos públicos e provocou a queda do presidente Santiago Peña, frequentemente citado como referência por políticos da direita brasileira.

O Paraguai, apresentado nos últimos anos por setores da direita brasileira como exemplo de desenvolvimento econômico baseado em impostos baixos e menor intervenção estatal, enfrenta uma das maiores crises financeiras e políticas de sua história recente.

O centro da turbulência é o Ueno Bank, instituição financeira digital que teve suas operações interrompidas após autoridades identificarem problemas graves de solvência e suspeitas de irregularidades. A crise atingiu milhões de clientes, comprometeu recursos públicos e colocou em xeque a fiscalização do sistema financeiro paraguaio.

O episódio também provocou consequências políticas de grandes proporções. Santiago Peña, presidente que mantinha vínculos empresariais anteriores com o grupo controlador do banco, deixou o cargo em meio às investigações. Em 6 de novembro, o Senado aprovou seu impeachment, e o vice-presidente Pedro Alliana assumiu a Presidência.

Paraguai era apresentado como referência por setores da direita brasileira

Desde a chegada de Santiago Peña ao poder, em 2023, o Paraguai passou a receber atenção de empresários, influenciadores e políticos brasileiros interessados em seu modelo econômico.

A combinação de impostos relativamente baixos, incentivos à atividade empresarial, energia elétrica competitiva e regras específicas para investimentos industriais tornou o país uma alternativa considerada por empresas brasileiras.

A produtora Brasil Paralelo também abordou o tema no documentário Paraguai: O Destino Inesperado, lançado em outubro de 2026. A produção apresenta experiências de brasileiros que transferiram negócios e famílias para o país vizinho e discute fatores que contribuíram para atrair investimentos.

O documentário faz parte de um debate mais amplo sobre o modelo econômico paraguaio. Entretanto, a crise do Ueno Bank trouxe à discussão questões que vão além da carga tributária e dos incentivos empresariais: fiscalização, transparência, controle de recursos públicos e responsabilidade das autoridades.

Ueno Bank: milhões de clientes atingidos pela crise

A dimensão do problema ficou evidente quando clientes começaram a enfrentar dificuldades para acessar suas contas.

O Ueno Bank atendia aproximadamente 2,9 milhões de pessoas, número equivalente a cerca de 60% da população adulta paraguaia. A instituição também administrava centenas de milhões de dólares em recursos públicos, incluindo valores relacionados à Previdência e a outros órgãos estatais.

Segundo informações divulgadas pela imprensa internacional, o Banco Central identificou problemas nos indicadores de solvência da instituição e determinou medidas para controlar sua situação financeira.

As investigações passaram a examinar suspeitas de concessão irregular de empréstimos a empresas relacionadas ao grupo controlador, falhas na documentação de operações e possíveis problemas na fiscalização.

O caso provocou protestos de clientes e preocupação entre aposentados, trabalhadores e pessoas que dependiam dos serviços bancários para receber pagamentos.

Segundo informações divulgadas pelo Banco Central paraguaio em 7 de novembro, aproximadamente 1,2 milhão de clientes já haviam recebido restituições parciais de seus recursos por meio do mecanismo de garantia de depósitos.

Relações empresariais de Santiago Peña entram no centro das investigações

Outro aspecto que ampliou a repercussão do escândalo foram os vínculos anteriores entre Santiago Peña e o Grupo Vázquez, controlador do Ueno Bank.

O presidente manteve participação empresarial ligada ao grupo até março de 2025, conforme informações publicadas pela imprensa internacional.

Também passou a ser questionada a trajetória de Carlos Carvallo, que presidiu o Banco Central paraguaio e havia ocupado anteriormente uma posição de liderança na estrutura empresarial que deu origem ao Ueno.

A proximidade entre antigos vínculos empresariais e posições de responsabilidade pública levantou questionamentos sobre possíveis conflitos de interesse e a atuação dos órgãos de fiscalização.

Carvallo deixou a presidência do Banco Central durante a crise. Posteriormente, o Ministério Público paraguaio determinou sua detenção no âmbito das investigações.

Peña nega ter cometido irregularidades. As suspeitas e acusações estão sob investigação e precisam ser analisadas pelas autoridades competentes.

Crise termina com impeachment de Santiago Peña

A pressão política aumentou à medida que as consequências financeiras do caso se tornaram mais evidentes.

Em 5 de novembro, Peña apresentou sua renúncia, alegando preocupação com a estabilidade institucional do país. Entretanto, a situação avançou para um processo de impeachment.

No dia seguinte, 6 de novembro, o Senado aprovou sua destituição. O vice-presidente Pedro Alliana assumiu a Presidência do Paraguai.

A crise também alcançou integrantes da estrutura do banco. Executivos foram detidos e passaram a responder a investigações relacionadas às suspeitas de irregularidades financeiras.

O episódio abriu uma discussão nacional sobre a concentração de recursos públicos em instituições financeiras privadas e os mecanismos utilizados para fiscalizar operações bancárias.

O que a crise representa para o debate econômico?

O caso paraguaio reacende uma discussão presente em diferentes países da América Latina: até que ponto a redução de impostos e a flexibilização das regras econômicas podem estimular investimentos sem comprometer a fiscalização e a proteção da sociedade?

O Paraguai construiu mecanismos para atrair empresas estrangeiras, incluindo incentivos fiscais e regimes especiais de produção industrial. Essas medidas ajudaram a fortalecer determinados setores econômicos e atraíram empresários brasileiros.

Entretanto, a crise do Ueno Bank demonstra que condições favoráveis aos negócios não eliminam a necessidade de instituições de controle eficientes, transparência e regras capazes de proteger os depositantes.

Baixa tributação, liberdade econômica e estabilidade financeira são conceitos diferentes. Um país pode oferecer vantagens tributárias e, ao mesmo tempo, enfrentar problemas graves de supervisão bancária.

O Paraguai continuará atraindo empresários brasileiros?

Apesar da crise, o Paraguai não deixa automaticamente de ser um destino de investimentos. O país possui vantagens competitivas, como custos de produção, energia e incentivos para determinadas atividades industriais.

O desafio agora será recuperar a confiança de investidores, consumidores e instituições financeiras.

A investigação sobre o Ueno Bank também deverá esclarecer responsabilidades, identificar eventuais irregularidades e determinar como os recursos públicos foram administrados.

O episódio deixa uma questão importante para o debate brasileiro: modelos econômicos não devem ser avaliados apenas pelas promessas de crescimento, redução de impostos ou facilidades para empresários. A qualidade das instituições, a fiscalização e a proteção dos cidadãos também precisam fazer parte dessa análise.