“Estamos celebrando a estupidez humana em todas as formas”, diz professora da UFMA em artigo

No texto, a educadora lembra que as autoridades tiveram três meses para se preparar para a guerra contra o novo coronavírus, mas pouco foi feito.

Maranhão Notícias

SÃO LUÍS – A música “Perfeição”, do álbum “Descobrimento do Brasil”, da banda Legião Urbana (1993), ícone do rock nacional da década de 1980, é o pano de fundo para um artigo científico da professora da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), Conceição Barbosa. A educadora recorre a canção de Renato Russo e cia para fazer uma reflexão sobre a pandemia do novo coronavírus, as políticas públicas ou falta delas e a “pressão” a qual os trabalhadores são submetidos em prol da economia do país.

Em “Pandemia, política e rock’n roll”, a Conceição Barbosa lembra que governo teve três meses para se preparar para a guerra contra o vírus, mas não se municiou de máscaras, respiradores, não produziu testes para a Covid-19, material de EPI, não aumentou o número de vagas nas UTIs, treinou pessoal da saúde, vacinou contra as epidemias de inverno e nem treinou professores e funcionários em geral para o trabalho remoto entre outros.

“(…)Mas está tudo perfeito, vamos continuar, o Brasil não pode parar, é uma máquina de produção que deve ser mantida a qualquer custo. Esse qualquer custo significa uma quantidade não calculável de vidas ceifadas. Mas a perfeição deve ser mantida, como na canção de Dado Villa-Lobos, Bonfa e Renato Russo “vamos celebrar a estupidez do povo”, “celebrar nosso governo que não é nação” e que acredita ainda nas mentiras renomeadas e modernizadas de “fakenews”. Afinal, se mudamos o termo ou conceito, se mudamos as palavras tudo fica diferente.  Só que não…”, diz trecho do artigo, que você pode conferir abaixo:

PERFEIÇÃO – Legião Urbana (1993 – 4a. Faixa do Álbum “O descobrimento do Brasil”)

Vamos celebrar a estupidez humana

A estupidez de todas as nações

O meu país e sua corja de assassinos covardes

Estupradores e Ladrões

Vamos celebrar a estupidez do povo

Nossa polícia e televisão

Vamos celebrar nosso governo

E nosso estado que não é nação

 

Celebrar a juventude sem escola,

as crianças mortas

Celebrar nossa desunião

Vamos celebrar Eros e Thanatos

Persephone e Hades

Vamos celebrar nossa tristeza

Vamos celebrar nossa vaidade

 

Vamos comemorar como idiotas

A cada fevereiro e feriado

Todos os mortos nas estradas

Os mortos por falta de hospitais

Vamos celebrar nossa justiça

A ganância e a difamação

Vamos celebrar os preconceitos

O voto dos analfabetos

 

Comemorar a água podre e todos os impostos

queimadas, mentiras e sequestros

Nosso castelo de cartas marcadas

O trabalho escravo, nosso pequeno universo

Toda a hipocrisia e toda a afetação

Todo roubo e toda indiferença

 

Vamos celebrar epidemias

É a festa da torcida campeã

Vamos celebrar a fome

Não ter a quem ouvir, não se ter a quem amar

Vamos alimentar o que é maldade

Vamos machucar o coração

 

Vamos celebrar nossa bandeira

Nosso passado de absurdos gloriosos

Tudo que é gratuito e feio

Tudo o que é normal

Vamos cantar juntos o hino nacional

A lágrima é verdadeira

Vamos celebrar nossa saudade

E comemorar a nossa solidão

 

Vamos festejar a inveja

A intolerância, a incompreensão

Vamos festejar a violência

E esquecer a nossa gente

Que trabalhou honestamente a vida inteira

E agora não tem mais direito a nada

 

Vamos celebrar a aberração

De toda a nossa falta de bom senso

Nosso descaso por educação

Vamos celebrar o horror de tudo isto com festa,

velório e caixão

Está tudo morto e enterrado agora

Já que também podemos celebrar

A estupidez de quem cantou essa canção

 

Venha!

Meu coração está com pressa

Quando a esperança está dispersa

Só a verdade me libertará

Chega de maldade e ilusão

 

Venha!

O amor tem sempre a porta aberta

E vem chegando a primavera

Nosso futuro recomeça

Venha que o que vem é perfeição

 

Essa música maravilhosa dos anos 90, da melhor banda de rock que já tivemos no país, na época em que música tinha um sentido, uma mensagem a passar, nos reflete, embora tenha sido escrita nos anos 80/90, na época da criação da Constituição Brasileira e nos anos iniciais de sua implementação.

Nos reflete porque reflete o Brasil de hoje. Estamos celebrando a estupidez humana de todas as formas, mas principalmente em relação ao que deveria ser o valor maior para a humanidade: a própria humanidade, a ponto da balança entre a economia e a preservação de algumas vidas ser a questão mais discutida do mês. Embora não tenhamos essa escolha, economia x vida, pois é uma forma simplista e tosca de ver a realidade, como quem vê a ponta de um iceberg e pensa que é uma pedra de gelo na água, sem perceber o que está abaixo da superfície, que é muito mais profundo.

 

Não estamos em condições de fazer essa escolha porque não é simples assim. Em primeiro lugar, porque a economia já estava em galopante decadência, tanto aqui como nos EUA, nosso modelo de perfeição.

 

 

Ainda nesse raciocínio, não estamos em condições de escolher porque não se trata de um filme de Stephen King, no qual a cidade tem que escolher entregar alguns dos seus e será poupada. É uma pandemia, um vírus que praticamente desconhecemos, e o “grupo de risco”, que seriam as pessoas a se sacrificarem ou melhor, a serem sacrificadas por nossa ignorância e incapacidade de combater esse vírus letal, parece que se modifica constantemente, de acordo com as condições de cada país, ou até, não exista grupo de risco.

 

Mas está tudo perfeito, vamos continuar, o Brasil não pode parar, é uma máquina de produção que deve ser mantida a qualquer custo. Esse qualquer custo significa uma quantidade não calculável de vidas ceifadas. Mas a perfeição deve ser mantida, como na canção de Dado Villa-Lobos, Bonfa e Renato Russo “vamos celebrar a estupidez do povo”, “celebrar nosso governo que não é nação” e que acredita ainda nas mentiras renomeadas e modernizadas de “fakenews”. Afinal, se mudamos o termo ou conceito, se mudamos as palavras tudo fica diferente.

Só que não…

Não adianta renomear, mentiras serão sempre mentiras e essas fakenews são mentiras, guiam o povo às ações impensadas, automatizadas, quase que instintivas. Nos tornamos animais repetindo as fakenews que nossos ídolos disseminam nas redes sociais. E acreditamos que está tudo perfeito. É a perfeição.

 

Não, não é. É a abominação. O Brasil há muito tempo não produz nada, os nossos produtores do “Agro é pop, Agro é tudo”, os ruralistas que querem tirar as terras indígenas são especuladores financeiros, não são grandes produtores para o bem da nação. Em vez de produzir para seu país, sua nação, produzem para exportar, para ganhar com o dólar e não com o produto em si. Além disso, alegam nacionalismo, mas devemos lembrar que ficamos pagando altos preços da carne porque eles preferiam “fazer dinheiro” com a exportação. Qual é o nacionalismo aqui?

 

No mesmo sentido, devemos lembrar que os EUA estão “imprimindo” dinheiro desde 2019 e que o PIB brasileiro dos últimos anos tem sido o pior que já tivemos na história do país. Então, não adianta passar maquiagem, não adianta jogar fakenews e achar que estávamos com uma economia em pleno vapor, porque não estávamos.

 

E passamos os últimos 5 anos “celebrando nossa bandeira” e perdendo direitos com os cortes em nome da modernização, outro termo bonitinho que encobre a realidade. Os hipócritas chamam de modernização a retirada de direitos, mas enchem os bancos com os juros mais altos do mundo. E estamos preocupados com os professores doutrinadores que ganham muito para “doutrinar” nossos filhos, enquanto os falsos profetas enchem as burras de dinheiro, mas eles podem, eles não “doutrinam”, eles vendem oração (que podemos fazer em casa, é só abrir a boca e rezar, orar, pedir, implorar…ou o que quer que seja que seu Deus ordenar), vendem bençãos, vendem a “cura”, mas nós pagamos com felicidade repetindo como que um mantra “o dízimo está na Bíblia”.

 

Mas nessa sociedade perfeita, professor bom é o que fala o que queremos ouvir, as nossas “verdades”. Parece que de fato dogma, doutrinação é coisa de igreja, não de escola. A escola deveria ser o lugar do livre pensamento, da liberdade de reflexão, de expressão, mas do respeito, porque liberdade de expressão nunca foi nem será sinônimo de calúnia, injúria e difamação. É por isso que as religiões não aceitam contestação, pois são baseadas em DOGMAS, verdades absolutas e irrefutáveis, e se não concordamos com esses dogmas, essas “verdades”, podemos sair sem queimar na fogueira, podemos mudar de religião.

 

Mesmo assim, o Brasil, onde tudo é a perfeição, para isso precisa inverter a realidade, se um dogma é a verdade para alguns, ele é pintado de ciência, e a ciência se torna dogma e mentira nas mãos de políticos sofistas e falsos profetas manipuladores nessa realidade desvirtuada.

 

Então há muito estamos brincando com as palavras e entrando num pensamento esquizofrênico no qual a verdade é a mentira e a mentira é a verdade. Um jogo perigoso. O youtuber, o político, o apresentador de TV caluniador, difamador, injuriador é tido como o modelo a ser seguido. Os programas de TV que mostram o pior do ser humano têm altas audiências. E assim, vamos formando nosso imaginário e acreditando, às gargalhadas, que o bom mesmo é o espertalhão, o que se dá bem e destrói a imagem dos outros. Uma grande inspiração para essa sociedade, afinal, teria que ser realmente uma reação de escárnio e desrespeito para esta classe dominante que nos escraviza e continua vendendo o peixe da meritocracia e da luta contra a corrupção.

 

Infelizmente, este escárnio se vira contra a própria população, que “festeja a violência, a inveja, a intolerância e a incompreensão”. Esse é o lema da direita: não tolerar o diferente, desdenhar o que já foi feito e o conhecimento, enaltecer somente os seus seguidores, mesmo que sejam incapazes de exercer qualquer ação efetiva para o cargo. Isso não é meritocracia, mas ao idolatrar um hipócrita, o outro se projeta e acredita estar à altura de exercer uma função de comando.

 

E agora estamos assim, com todos os seguidores incompetentes

no poder, uns abandonando o barco, porque já fizeram aquilo que foram designados a fazer: espoliar a nação para o enriquecimento próprio e do setor financeiro (setor financeiro – leia-se bancos). E continuamos batendo palmas e imaginando que mergulhar na ignorância vai salvar o país, ignorar a existência de um perigo real vai recuperar a economia que foi devastada pela incompetência (para nós brasileiros), mas pelo exímio serviço prestado às outras nações e bancos pela corja de incompetentes entreguistas e interesseiros que assolaram a república e tomaram o poder diante de todos nós.

 

A violência que todos sofremos nas grandes cidades, nos assédios morais do trabalho, no salário indigno, no tratamento diferenciado, na ilusão de pertencer a uma classe superior ou um dia ser agraciado por uma condição melhor de vida, a intolerância religiosa, política, de classe, de status, a inveja que cega e nos faz “seguir” esses incompetentes como se fossem deuses ou salvadores da pátria, a incompreensão que nos faz tratar da política ora com desinteresse velado (“sou neutro”), ora com paixão cega e fanática por políticos e partidos como se fossem times de futebol nos leva a um abismo social: a aniquilação diante do inimigo invisível (o vírus), do inimigo velado (os bancos) e do inimigo camuflado (os políticos entreguistas).

 

E é isso que nos sobra, a tragicomédia do Porta dos Fundos ao tratar da colonização do Brasil: de 1500 pra cá nada mudou, o “gringo” chega achando que é melhor e nós acreditamos, achando que pode lidar melhor com nossas riquezas e nós entregamos, achando que podem nos escravizar e nós obedecemos porque nossos líderes que tanto idolatramos, à revelia da religião que seguimos, são comprados com pequenos mimos. “Vamos festejar a inveja, a intolerância, a incompreensão, vamos festejar a violência e esquecer a nossa gente que trabalhou honestamente a vida inteira e agora não tem mais direito a nada”.

 

É isso que nos resta: povo obediente e sofredor, esperando na fila por uma esmola e acreditando que estão nos fazendo um favor, enquanto entregamos de bandeja nossas riquezas e todo o dinheiro público nas mãos dos banqueiros que lucraram pouco com juros a 300% ao ano. Esses realmente precisam da ajuda do governo. O “estado” é mínimo para o cidadão, mas é máximo para os poderosos, como nunca deixou de ser no país que um dia acreditou na ilusão da democracia.

 

Tivemos 3 meses para nos preparar para a guerra contra o vírus: produzir no nosso próprio país máscaras, respiradores, material de EPI, produzir testes para o covid-19, aumentar as vagas nas UTIs, treinar pessoal da saúde, educar a população, promulgar leis, estabelecer prioridades para o SUS e os hospitais privados e os planos de saúde, criar hospitais de campanha nos grandes centros, planejar estratégias para a produção, comercialização e distribuição de alimentos, transferir os gordos incentivos dos bancos para a saúde da população em geral (SUS), vacinar contra as epidemias de inverno, treinar professores e funcionários em geral para o trabalho remoto, desenvolver aplicativos para a contenção da disseminação do vírus, fiscalização dos aeroportos, organizar e agendar atendimento dos serviços imprescindíveis, governar para o povo assumindo a distribuição de água, luz e gás gratuito, transferir o dinheiro dos gastos com os políticos para utilizá-lo com a alimentação da população desempregada porque é pra isso que deve existir o Estado, para socorrer o povo e não os bilionários e os bancos.

 

Mas o que fizemos? Continuamos brigando por causa da nossa idolatria aos mitos políticos. E eles, em meio a uma guerra, incapazes de gerir o próprio lar, nos mandam trabalhar. Uma imagem bem interessante: “vão peixes, pulem fora da água e evoluam”. Texto de Conceição Barbosa, professora da UFMA, em São Luís.(Foto: Divulgação).

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