
A atuação do deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL), anunciado como candidato a vice-presidente na chapa de Flávio Bolsonaro, entrou no centro de uma controvérsia envolvendo as investigações sobre descontos indevidos em aposentadorias e pensões do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Segundo reportagem publicada pelo Intercept Brasil, assinada pela jornalista Gisele Lobato em 15 de outubro de 2026, Gaspar não incluiu Wilson Roberto Gomes entre os nomes para os quais pediu indiciamento no relatório final que apresentou à Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS. O empresário, conhecido como “big boss” em um grupo investigado, aparece em documentos e relatos relacionados ao esquema.
De acordo com a apuração do Intercept Brasil, relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontaram que quase R$ 10 milhões passaram pela conta bancária de Wilson Gomes entre dezembro de 2024 e junho de 2025. Mais de R$ 4,2 milhões teriam vindo de contas relacionadas a empresas ligadas ao grupo investigado, conhecido como Golden Boys.
A reportagem também relata que o empresário transferiu pelo menos R$ 5 milhões para uma empresa ligada à venda de um helicóptero Robinson R66, adquirido em fevereiro de 2025. A aeronave teria sido posteriormente bloqueada por decisão judicial.
Esses registros são apontados pela reportagem como elementos que levantam questionamentos sobre a ausência do empresário no pedido de indiciamento apresentado por Gaspar. Entretanto, movimentações financeiras suspeitas, por si só, não comprovam participação criminal.
Outro ponto importante é que o documento elaborado por Alfredo Gaspar não foi aprovado pela CPMI. Em votação realizada em 28 de março de 2026, o relatório foi rejeitado por 19 votos a 12, e a comissão encerrou os trabalhos sem aprovar um relatório final. Portanto, os pedidos de indiciamento apresentados pelo deputado não se tornaram conclusões oficiais do colegiado.
Em resposta ao Intercept Brasil, Alfredo Gaspar negou ter protegido Wilson Gomes ou qualquer outro investigado. O deputado afirmou que não encontrou elementos probatórios suficientes para justificar o indiciamento do empresário e de seu filho, Ygor Buttarello Gomes.
Gaspar também atribuiu dificuldades para aprofundar determinadas linhas de investigação à atuação de integrantes da base governista na comissão. Segundo ele, a ausência de um nome no relatório não impede que a Polícia Federal e o Ministério Público continuem investigando.
A defesa de Wilson Gomes, por sua vez, negou que o empresário tenha mantido relações com as associações investigadas ou recebido recursos delas. Os advogados afirmaram que apresentaram documentos ao Supremo Tribunal Federal para demonstrar a regularidade do patrimônio do cliente. O ex-ministro José Carlos Oliveira também negou ter recebido vantagens financeiras ou praticado irregularidades.
A controvérsia ganha dimensão política porque Alfredo Gaspar passou a integrar como candidato a vice a chapa presidencial de Flávio Bolsonaro. O trabalho desenvolvido na CPMI era uma das principais credenciais políticas do deputado, mas a reportagem levanta dúvidas sobre os critérios utilizados para selecionar os nomes incluídos no pedido de indiciamento.
O episódio também expõe o desafio de transformar investigações parlamentares em responsabilização efetiva. Para além das disputas políticas, o esclarecimento das suspeitas depende da análise das provas pelas autoridades competentes e do respeito ao direito de defesa dos envolvidos.
O que se sabe até agora: o empresário foi citado durante a CPMI, não apareceu entre os nomes cujo indiciamento foi solicitado por Gaspar e teve movimentações financeiras descritas como suspeitas pela reportagem. Gaspar e a defesa de Wilson Gomes negam irregularidades ou proteção deliberada. As suspeitas precisam ser diferenciadas de uma condenação pelos fatos relacionados ao INSS.
Crédito da apuração original: Gisele Lobato, Intercept Brasil, reportagem publicada em 15 de outubro de 2026.
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